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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O HOMEM DO LIXO

A mulher senta-se pesadamente no banco e coloca uma sacola cheia de coisas sem valor entre os pés. Apoiando os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos, ela observa a calçada. Em seu corpo, tudo dói. Costas, pernas, pescoço. Seus ombros estão rijos e sua mãos, esfoladas. Tudo por causa da sacola.
Oh! se ao menos pudesse se livrar desse lixo.

Nuvens compactas constroem um céu cinzento, cinzento com mil sofrimentos. Prédios sujos de fuligem lançam longas sobras que escurecem as calçadas e as pessoas que nelas caminham. A garoa resfria o ar e enlameia a enxurrada que corre pelas sarjetas. A mulher envolve-se em seu casaco. Um carro que passa encharca a sacola e espirra água em seu jeans. Ela não se move. Está cansada demais.
Suas lembranças de uma vida sem sacolas são indistintas. Quando era crianças, talvez ? Suas costas eram mais retas, seu andar mais rápido... ou isso é um sonho ? Ela não tem certeza.

Passa um segundo carro. Pára e estaciona. Dele desce um homem. Ela observa que seus pés afundam na lama. Do carro, ele retira uma sacola cheia e pesada de lixo, e a coloca em seus ombros, xingando o peso.
Nenhum deles diz uma palavra. Ela nem sabe se ele percebeu sua presença. Seu rosto parece jovem, mais jovem que suas costas encurvadas. Num momento o homem desaparece. E o olhar da mulher torna a fixar-se no chão.
Ela nunca olha para o seu lixo. Mas em outro tempos sim. Porém o que via a repugnava, por isso agora sempre deixa a sacola fechada.
Que mais pode fazer ? Dar de presente a alguém ? Todos têm a sua própria sacola de sofrimentos.

Agora aparece uma jovem mãe. Com uma das mãos ela leva uma criança, com a outra carrega seu fardo, sacolejando pesadamente. E também um velho com a face sulcada de rugas. Sua sacola de lixo é tão comprida que balança sobre suas pernas quando caminha. Ele olha para a mulher e tenta sorrir.
Qual peso estaria carregando ?, ela imagina ao vê-lo passar.
"Tristeza."
Ela se vira pra ver quem falou. Ao seu lado, no banco, um homem havia se assentado. Alto, com feições angulares e brilhantes, e os olhos bondosos. Seu jeans também está manchado de lama. Todavia, seus ombros, ao contrário, são retos. Ele veste uma camiseta e um boné de beisebol. Ela olha em volta, mas não vê se Ele também carrega uma sacola de lixo.

Ele observa o velho que se afasta e explica: "Quando era um jovem pai, ele trabalhava durante muitas horas e negligenciava a família. Seus filhos não o amam. Sua sacola está cheia, cheia de tristeza e remorso".
Ela na responde. Por isso, Ele continua.
"E a sua ?"
"A minha ?", ela pergunta.
"Vergonha", o homem diz, cheio de pena.
Ainda assim ela se cala, mas também não se afasta.
"Muitas horas nos braços errados. No ano passado. Na noite passada... vergonha."

Seu corpo se endurece, como se fosse de aço contra o escárnio que havia aprendido a esperar. Como se precisasse sentir mais vergonha. Faça-o se calar. Mas como ? Ele aguarda o seu julgamento. No entanto, isso nunca acontece. Sua voz é doce e sua pergunta é sincera: "Não quer me dar o seu lixo ?"
A mulher inclina a cabeça para trás. O que Ele está dizendo ?
"Dê seu lixo para mim. Amanhã. Lá no lixão. Não deixe de trazê-lo."
Ele limpa um pouco de chuva da face da mulher, esfrega o dedo e se levanta. "Sexta-feira. No lixão."
Ela continua sentada, muito tempo depois que Ele partiu, recordando a cena, tocando a face. Sua voz ainda persiste, seu convite paira no ar. Ela tenta esquecer suas palavras, mas não consegue. Como esse homem poderia saber tudo aquilo a seu respeito ? E, como podia saber, e continuar sendo tão gentil ? Sua lembrança se acomoda no íntimo de sua alma, como se fosse de um hóspede inesperado, porém muito bem-vindo.

O sono daquela noite lhe trouxe sonhos de verão.
Uma jovem sob um céu azul e nuvens de algodão brincava entre flores silvestres e sua saia rodopiava. Ela sonha que estava correndo com as mãos bem abertas tocando na corola dos girassóis. Ela sonha com pessoas felizes enchendo o prado de risos e esperança.
Entretanto, quando acorda, vê que o céu está escuro, as nuvens cresceram e as ruas se cobriram de sombra. Ao pé da cama, permanece sua sacola de lixo. Coloca-a sobre seu ombro, deixa o apartamento e desce as escadas em direção à rua, ainda escorregadia de neve derretida.
É sexta-feira.

Durante algum tempo ela fica parada e pensativa. Imaginando primeiro o que Ele queria dizer e, depois, se realmente tinha essa intenção. Ela suspira. Com um fio de esperança que quase ofusca seu desânimo, ela caminha em direção à periferia da cidade. Outras pessoas também estão caminhando na mesma direção. O homem ao seu lado cheira a álcool. Ele der dormido muitas noites com a mesma roupa. Uma adolescente caminha alguns passos à sua frente. A mulher da vergonha corre para alcança-la. A jovem se oferece para responder antes que qualquer pergunta tenha sido feita: "Ódio. Ódio do meu pai. Ódio de minha mãe. Estou cansada de sentir ódio. Ele disse que iria tirar esse ódio de mim." E mostra a sacola. "Vou levá-la para Ele."
A mulher acena com a cabeça e as duas caminham lado a lado.

O local está coberto de lixo — papéis, vassouras quebradas, camas velhas e carros enferrujados. Ao chegarem à colina, a fila até o topo é muita comprida. Centenas de pessoas caminham à frente das duas mulheres e todas esperam em silêncio, alarmadas com o que ouvem — um grito, um bramido cheio de dor que flutua no ar por momentos e apenas se interrompe com um gemido. Depois, o grito volta novamente. O dEle.

Ao se aproximarem, passam a entender a razão. Ele se ajoelhou perante cada um, aponta para a sacola, faz um pedido e depois uma oração. "Posso pegar a sacola ? Tomara que você nunca mais volte a carregá-la." Em seguida, o homem curva a cabeça, levanta a sacola e derruba seu conteúdo sobre si mesmo. O egoísmo do glutão, a amargura do irado, a neurose de posse do inseguro. Como se tivesse mentido, enganado ou ofendido o Criador, Ele passa a sentir o mesmo que as outras pessoas sentiam.
Quando chega a sua vez, a mulher pára um momento. Ela hesita. Os olhos do homem a convidam a ir adiante. Ele estende a mão e se apodera de seu lixo. "Você não pode viver com isso." "Você não foi feita para isso." Com a cabeça baixa, Ele derruba toda a vergonha sobre seus próprios ombros. Em seguida, olhando para o céu, com olhos inundados de lágrimas, Ele grita: "Me perdoe".
"Mas você não fez nada", ela exclama.
No entanto, Ele está soluçando como ela havia soluçado em seu travesseiro uma centena de noites. Foi então que entendeu que o pranto desse homem representa o seu próprio pranto. Sua vergonha passou a ser dEle.
Com um dedo ela toca a sua face e, no primeiro passo em uma longa noite, não tem mais nenhum lixo para carregar.
Junto aos outros ela se coloca aos pés da colina e observa enquanto o homem é enterrado sob um monte de tristezas. Durante algum tempo Ele ainda geme. Depois... nada. Somente o silêncio.

As pessoas se acomodam entre carros quebrados, papéis e fogões descartados e imaginam quem seria esse homem e o que acabou de fazer.
Como carpideiras numa vigília, elas se demoram. Algumas contam histórias, outras se calam. Todas lançam olhares furtivos ao lixão. Parece muito estranho ficar andando naquela montanha de entulhos. Contudo, parece ainda mais estranho pensar em ir embora.
Portanto, elas permanecem ali. Atravessam a noite até o amanhecer. A escuridão vem novamente. Uma corrente de amizade se estabelece entre elas, uma amizade que se formou através do homem do lixo. Algumas adormecem, outras acendem uma fogueira nos tambores de metal e falam sobre uma repentina abundância de estrelas no céu daquela noite.
Pela madrugada, todos dormem. E quase deixam escapar o momento. É a jovem que vê primeiro. A jovem que fora cheia de ódio. A princípio, não acreditava no que vê, mas quando repara melhor, logo compreende.

As palavras dela são suaves e não são dirigidas a ninguém em particular... "Ele está de pé."
Depois, ela grita bem alto para a sua amiga: "Ele está de pé".
E então, para todas as outras pessoas: "Ele está de pé!"
Ela se volta; todos se voltam. E todos vêem sua silhueta projetada sobre um sol dourado.
De pé. Sim, é verdade.


O Salvador Mora ao Lado
Max Lucado

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O TEMPO, A MORTE E A VIDA

Hoje quando acordei percebi que o mundo estava diferente de ontem, do tempo da minha infância. O passado ficou para trás. Eu não sou mais o mesmo, as pessoas também não são mais as mesmas, muitas até já se foram. Às vezes dá saudade dos tempos antigos, da fase da inocência. Mas o que preocupa mesmo são os tempos que virão. Se pudéssemos imaginar como seria o futuro descobriríamos que ele nunca chega e que quando nos damos conta ele já passou, e foi tão rápido que não deu tempo nem de vê-lo. Ainda bem! Talvez, se pudéssemos ver ao menos a silhueta dos tempos vindouros o desastre poderia ser maior, pois descobriríamos que o futuro não é como imaginamos. Nunca se sabe o que vai acontecer adiante, pois o mundo não para de girar e o relógio prossegue afoitamente em seu trabalho sem cessar, empurrando os ponteiros que atiram para todos os lados, como setas, nos atingindo com os mistérios do amanhã, enquanto achamos que aprisionamos o tempo em calendários, programando a vida, pré-estabelecendo a rotina, sem saber se o dia de amanhã virá. Será que estamos virando robôs ou não estamos bem programados?

Durante a noite sonhei com a morte, pensei na vida e descobri que ninguém está livre de se encontrar com o seu medo. Descobri que o homem não tem medo da morte, mas do que virá depois dela. O medo do desconhecido torna a vida uma grande produtora de adrenalina que nos arrebata aos pensamentos mais secretos sobre o outro lado da vida e nos torna conscientes de que a fatalidade mora ao lado da prudência e a morte nada mais é do que o embrião da vida, pois quando morremos é que nascemos, e quando nascemos da morte é que vivemos. Mas existe uma condição para que seja assim e ao menos que ela seja desrespeitada, então a morte pode se tornar um monstro intransponível que, mais do que assustar, pode possuir a vida e torná-la extinta por toda a eternidade.

Tentamos dominar o tempo e esquecemos que ele está prestes a ter um fim. Enjaulamos nosso medo da morte no recôndito de nosso ser tentando exonerar a incerteza do que virá com uma fé que muitas vezes não é suficiente para nos trazer a certeza sobre o amanhã e a vida, e esquecemos que no porão de nossa alma existe um monstro maior ainda, que somos nós mesmos. O nosso eu que quer pecar e se satisfazer dos desejos mais repugnantes que se possa desejar, se contrapondo a santidade e a justiça que ainda pode envolver o ser humano. É esse monstro que percebe o tempo acabando e se lança como um animal selvagem sobre o monturo da irracionalidade humana e se alimenta do opróbrio do ser mais importante da criação. Porque somos assim?

A vida é apenas uma experiência que serve para nos moldar a um padrão inexistente nesse mundo. Muitos tentaram com vãs filosofias, dogmas e doutrinas, teorias, misticismo e muitas outras formas, padronizar a vida que nem mesmo eles entendiam. Criaram regras, estabeleceram hierarquias, desrespeitaram o sagrado e mataram uns aos outros, fizeram terrorismo na tentativa de manipular a vida que desconheciam. Não adianta tentar entender, é preciso viver, e viver cada dia como se fosse o único, na busca de compreender a si mesmo, em seu verdadeiro conceito, na plenitude de sua intensidade. A vida está dentro de cada um e nada mais é do que a liberdade da alma de poder, em sua verdadeira essência, experimentar emoções latentes em si mesma.

O mundo quer controlar a vida, a morte quer seu fim e a vida quer somente ser vivida. Ontem eu dormi mais novo e amanheci mais velho. O espelho não me deixa enganado. A agitação da rotina me convence disso e o tempo apenas passa e me leva com ele, como um prisioneiro, acorrentado a ele com passagem só de ida, rumo ao encontro da bendita morte, o fim da gestação de um ser e o início de uma “desconhecida” vida, de um novo indivíduo. Já não penso nas coisas de menino, nem vivo como um. Minha semente já está plantada nessa terra e dará continuidade a vida, a essa vida que eu quero entender... e morrer... e finalmente viver, sem o monstro da morte me perseguindo, sem as incertezas do amanhã.

A vida que foge de nossas mãos é a mesma que nos conduz como cativos do tempo que passou, que vivemos e do tempo que virá. O tempo que queremos controlar é o mesmo que corrói nossa existência, deteriorando o vigor, corrompendo a saúde, e que nos arremessa nos braços da morte. E a morte?! Ah! A morte nada mais é do que a libertação. Deixamos de ser "homens empalhados, almas sem feitio, mentes com falhas" para enfim gozar da plenitude da existência em sua totalidade, experimentando de forma definitiva a integralidade do ser.

Contudo sem interferir no tempo individual, cada um precisa viver seu próprio tempo, pois basta à cada dia o seu próprio mal, deixando nas mãos do Criador o poder de decidir a hora do nascimento para a eternidade ou a morte definitiva de cada indivíduo, sabendo que isso é o resultado de uma escolha feita nessa vida, a de se permitir então ser controlado somente pelo dono do tempo, da morte e da vida. Mas "quando foi que ajoelhamos? Quando foi que chamamos Deus de pai? Na verdade, não somos bons filhos!"

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um novo agitador cultural

Esta semana eu estava lendo a reportagem Onde está Oswald?, publicada na edição de julho (nº 167) da revista BRAVO!, de autoria de Barbara Heckler e João Gabriel de Lima, que questionava se existem hoje agitadores culturais tão relevantes quanto Oswald de Andrade foi em seu tempo?

É uma pergunta difícil de ser respondida, pois a intensidade com que Oswald incendiou a cena cultural do início do século passado é o que o torna um agitador inimitável, além disso o momento atual é pobre em relação à produção artística daquela época e, embora a diversidade e a multiplicidade de estilos permeiem a arte nos dias de hoje, as novas tecnologias e a internet descentralizam o fenômeno cultural contemporâneo.

Como a arte é pouco valorizada pela maioria da sociedade que tem olhos apenas para as expressões artísticas de entretenimento em massa através das mídias convencionais é difícil encontrar e destacar alguém que se identifique como agitador cultural em nossos dias. Podemos encontrar um ou outro que faça alusão a propagação das artes, estimulando escritores, artistas plásticos, atores, músicos. Porém em uma sociedade miscigenada culturalmente, embora globalizada, encontrar uma unidade ideológica entre as artes é quase impossível. Os artistas estão submersos em seus próprios trabalhos, preocupando-se com suas próprias obras mais do que em incitar movimentos, talvez até mesmo por falta de fé na extensão histórica que eles mesmos poderão alcançar mais tarde.

Mas como no fim do túnel há sempre uma luz de esperança, e como os agitadores são sempre seres apaixonantes, destaco nos dias de hoje Marcos Almeida, o jovem vocalista de uma banda de rock independente denominada {palavrantiga}, que tem se tornado um expoente de uma classe que é vista como avessa a cultura de um modo geral. Desde que a banda se formou e conquistou seguidores através das mídias virtuais e redes sociais, Marcos Almeida tem ganhado notoriedade entre os jovens por suas letras poéticas, algumas com claras referências literárias, pois além de cristãos evangélicos declarados, o {palavrantiga} é conhecida por ser uma banda de rock sem rótulo, e isso se deve ao seu vocalista que insiste através da home page da banda, ou de seu blog pessoal, e mesmo de amigos, em incentivar seu público a buscar através da cultura as respostas para as questões que permeiam a vida humana, sejam evangélicos ou não, pois em sua concepção:

“Está aí o principal motivo para qualquer produção cultural; a fome de céu, ou, o mundo inteiro que mora dentro de nós e que carece de luz, pois é só escuridão.”
(Marcos Almeida – nossabrasilidade.com.br)

Postando em seu blog textos que na grande maioria são poemas de autores consagrados,  além de comentá-los expondo seu ponto de vista sobre a arte, Marcos Almeida tem contribuído para que haja uma mudança na visão distorcida que muitos têm quando se professa a fé em Jesus e se diz evangélico e ao mesmo tempo valoriza-se a cultura e a arte, independentemente se são de cunho secular ou religioso, o que de certa forma tem agitado a cena cultural atual. E não só utilizando a web, mas por onde tem passado, seja nas apresentações da banda, em cafés literários, ou em qualquer evento cultural que tem estado presente, esse jovem de futuro promissor tem conseguido incitar a muitos a buscar resgatar principalmente a valorização e o gosto pela cultura nacional, e assim expressarmos a nossa brasilidade, sempre respaldados pela fé em Deus, o que em sua visão é o principal combustível para a expressão artística do homem como resultado do anseio pela eternidade posto por Deus em seu coração.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A ROSA E A BORBOLETA

Finalmente seu pai havia acabado mais um quadro. Estava ansioso para ver o que ele pintara. Era sempre assim, gostava de ficar no atelier vendo aqueles quadros, imaginando a história de cada um e quando o pai deixava, lambuzava alguma tela com tinta também, mas somente enquanto esperava-o terminar suas obras de arte.

Gostava de quase todos. Algumas pinturas ele não entendia, outros eram muitíssimo lindos, e sempre que o pai entrava ali, corria para ver como seria a mais nova preciosidade que nasceria daquelas mãos que com tanto carinho, muitas vezes lhe abraçava e que com o mesmo sentimento acariciava aquelas telas.

Mas naquele momento, lá estava ele, pendurado na parede, o mais novo quadro, recém saído da sensibilidade de seu jovem pai, perto da janela. A tinta ainda fresca, não impedia que a beleza contida na tela fosse admirada. Seu pai com um olhar sereno caminhou em sua direção, como que perguntando: “Gostou?”, e em silêncio deu-lhe um beijo nas bochechas saindo em seguida, deixando-o sozinho no atelier.

Como em estado de hipnose, Ele ficou, ali, parado, quieto, em silêncio, apenas contemplando a bela rosa branca, delicadamente pintada naquele quadro. Era uma rosa feita de papel de cartas. Cada pétala era uma carta e muito provavelmente, cartas de amor de algum romântico apaixonado. O que estaria escrito naquelas pétalas? Poemas, declarações de amor, carta de despedida, não sabia. Sabia apenas que era uma singela flor e que estava sozinha naquele quadro, solitária em seus segredos, silenciosa em suas pétalas, a espera somente de um lugar ideal para desabrochar na imaginação daqueles que a contemplariam.

De repente o vento de final de tarde soprou suave invadindo o ambiente pela janela, balançando a cortina, trazendo em sua companhia uma pequena borboleta, que com toda a beleza de seu vôo, vasculhou cada canto daquele pequeno cômodo, como que escolhendo um lugar para sossegar as suas asas.

Ele, o menino, apenas acompanhava com os olhos o belo voo da borboleta, tentando adivinhar onde ela iria pousar, e num estalo, imaginou como aquela rosa solitária ficaria feliz com a companhia de uma borboleta pintada ao seu lado no quadro, com quem, assim, poderia compartilhar os seus segredos de amor. Correu então para falar com seu pai e pedir-lhe que fizesse conforme imaginara.

Porém quando voltou ao atelier, quão grande surpresa ambos tiveram, pois com uma nova lufada, o vento suavemente empurrou a borboleta que, com sua fragilidade, se deixou vencer pela força do vento e pelas artimanhas do destino, acabando assim, presa na tinta fresca, ao lado da rosa e livre na ingênua imaginação do menino.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eu sou brasileiro, com muito... com muito o quê?

Inspirado nos textos publicados por Marcos Almeida da banda {palavrantiga} em seu blog nossabrasilidade ontem (22/01/2012) e hoje, resolvi reeditar um texto meu escrito durante as últimas eleições municipais (2008).

Eu sou brasileiro, com muito... com muito o quê?

Hoje acordei pensando sobre quantas razões temos para bater no peito e cantar o hino nacional? Sobre quantos motivos temos para gritar bem alto que somos brasileiros com muito orgulho, com muito amor?


Conheço vários jovens e adolescentes, cujas atitudes, pra mim, são um exemplo de como a nossa nação não nos dá motivo pra sermos patriota. O maior desejo deles é ir para fora do Brasil, pois acreditam que tudo o que é bom mesmo vem lá de fora. O pensamento em comum é: “Pra que se empenhar por um país que não nos oferece motivos para amá-lo!”. Eles estudam mas não acreditam na educação; os bandidos se transformam em heróis, porque a polícia na verdade é do time do mal; político é tudo ladrão no submundo do Palácio Central e o Brasil é só um país subdesenvolvido de terceiro mundo.

Esse não é uma atitude isolada. A nossa juventude está sem esperança no futuro do Brasil. Os “caras pintadas” se transformaram em “caras fechadas”.

Percebi então que não precisamos sair de casa para sentirmos o fedor que exala da corrupção em que o nosso país está mergulhado, mostrando o seu estado de putrefação. O governo tenta tampar o sol com a peneira do futebol e do samba, mas deixa claro o paraíso em que o Brasil (um país de todos!) se tornou para àqueles que desejam dinheiro fácil. "A política e as leis são compradas por altas somas de dólares. Escândalo após escândalo humilham a nossa nação, amorais inescrupulosos viciados pelo poder nos governam através de um governo de puro clientelismo ordinário na rotina de destemperos da nossa nação."

Que motivos temos para nos orgulharmos desse Brasil? Sua história é toda inventada, e continua sendo manipulada. Precisamos de um novo grito de independência.

Como criticar jovens que crescem vendo seu país afundar na politicagem, onde seus maiores exemplos são os governantes corruptos; os jogadores de futebol que saem do país em busca de uma vida melhor; as mulheres sem pudor, totalmente nuas, nas revistas, televisão e calçadões da cidade; professores, médicos, advogados, policiais, políticos e toda sorte de profissionais que deveriam cuidar do povo, abusando de nossas crianças; as drogas, a violência, a discriminação racial e social. Diga-me que razões temos para cantar o hino nacional? A ordem e o progresso são só poesia. Um futuro melhor para o povo brasileiro ainda não deixou de ser utopia.

Hoje eu não tenho motivo para entoar o hino nacional, pois me sinto um filho abandonado pela amada mãe gentil. Brasileiro sim, mas de orgulho ferido por uma pátria que só tem me feito sentir vergonha.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sou humano, não perfeito!

"Sou humano, não perfeito!"

Essa foi a frase que li hoje cedo quando entrei no Facebook. Desde então a palavra PERFEIÇÃO não parou de ecoar na minha mente. Que palavra é essa? Existe isso mesmo? O ser humano pode alcançar o estado de perfeição na vida? O que significa ser perfeito?

O termo Perfeição deriva do latim perfectione e caracteriza um ser, ou algo, que reúne todas as qualidades e não tem nenhum defeito, nos dando a noção de completude, designando uma circunstância que não possa ser melhorada ainda mais, por já ser completa em si mesma, sendo considerada assim como uma reunião de todas as disposições sujeitas a uma unidade harmoniosa.

A perfeição é um estado inalcançável ao homem, não passa de utopia. Contudo é ético e sadio buscar atingir esse estágio, o que de toda forma o ser humano tem feito durante sua existência, através da filosofia, religião, ciência, etc.

Objetivamente, é através da arte que o homem mais tem expressado esse anseio, até mais do que por meio da fé. O conceito de perfeito esbarra na estética, um dos prícipios mais profundos da arte. E mesmo assim ser perfeito é ser como uma estátua que possui características estéticas irretocáveis, não ofende ninguém, não tem preocupações, não tem defeitos, não tem vida.

Imperfeição faz parte da finitude humana, das experiências físicas e emocionais e contribuem na formação do seu caráter enquanto vive, sem jamais encontrar a perfeição. Se prestarmos bastante atenção veremos que nada é realmente "perfeito". Sempre vai existir uma falha ou deficiência em algum ponto, num determinado momento, trazendo à tona aquela sensação de que poderia ser melhor.

O homem que sabe reconhecer os limites da sua própria inteligência está mais perto da perfeição. (Johann Goethe)

Devemos considerar também que não deixa de ser conveniente, aceitar a idéia de "perfeição". É uma questão pessoal e de momento. Alimentar o sonho sadio de que podemos alcançar a perfeição é válido, mas sem se iludir muito com isso. Reconhecer que sempre estamos tentando fazer o melhor que podemos é um passo rumo a esse estado humanamente utópico. Melhor mesmo é considerar a idéia do "humanamente possível" para as circunstâncias que podemos controlar, influenciar e transformar, deixando a idéia do "perfeito absoluto" para Deus, que revela a perfeição da “coroa da criação”, cada vez que busca regenerar a humanidade de sua imperfeição (Tg 3.2) à condição edênica do primeiro homem através de Jesus, seu Filho e Salvador do mundo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Vamos trocar as armas por flores e livros?

Se olharmos à nossa volta perceberemos que a humanidade segue um rumo totalmente contrário ao desejo de Deus. Embora saibamos que as guerras, a fome, as doenças, a morte e tudo o mais de ruim que acontece no mundo hoje fazem parte das profecias bíblicas é pertinente dizer que não é o que o Senhor planejou para o homem.

A corrupção humana tem deteriorado o pouco que ainda lhe resta de integridade, caráter e dignidade, além de fazer a natureza gemer com dores de parto (Rm. 8.22), mostrando que o homem não consegue nem preservar o que lhe é essencial para sua sobrevivência. Verdadeiras sanguessugas é o que somos. Sugamos uns dos outros, do planeta e ainda queremos sugar de Deus.

Vivemos em um estado generalizado de pecaminosidade, seja dentro ou fora da igreja, independente de credo, ideologia política, classe social, raça, escolaridade. E observando melhor dá para entender que em tudo somos iguais, a hominalidade prevalece porque assim é que somos.

Agora pensemos juntos: vale à pena deixar que a essência humana se perca e nos tornemos como bestas feras sempre a espreita do pecado e da maldade, sabendo que podemos ser melhores e ir muito além do que somos hoje pela graça infinita de Deus e que “os olhos de Deus não se pode tapar, que o juízo de Deus não se pode comprar”?

Temos a máquina mais perfeita já criada e ainda existente na face da Terra que é o nosso cérebro capaz de unir nossa mente com a de Cristo e que nos capacita a pensar, aprender e criar.

É hora de arregaçar as mangas e fazermos a diferença seguindo na contramão do sistema. Vamos trocar as armas por flores e livros, gerando assim uma revolução cultural respaldada por Deus e embasada na criatividade do céu como resultado da expressão íntima do homem frente às questões que o relacionam consigo mesmo, com o próximo e com o Criador, revelando o eterno e o sagrado, sem perder a liberdade e a alegria de ser humano. E assim o mundo possa perceber e dizer:

“Estes que têm subvertido o mundo, chegaram também aqui.” (At. 17.6)